O Canadá é um laboratório de raças, como já comentei, o país às voltas com a diversidade. É gente dos quatro cantos e curvas do mundo desembarcando aqui pra formar este mosaico social, e isto faz o corriqueiro muitas vezes incomum, como por exemplo, na cena de um certo cidadão que eu encontro no banheiro do escritório realizando sua cerimônia particular do lava-pés na pia...
Popularizada por Jesus, que num exemplo de humildade tomou bacia, água e toalha após a ceia final e lavou os pés dos discípulos, este ato era sinônimo de gentileza para com os visitantes naquela época, já que as viagens eram longas, as pessoas usavam sandálias, e as vias não eram pavimentadas. Assim, a primeira coisa que o anfitrião oferecia era o lava-pés, que era comumente realizado pelo cervo menor graduado da casa, daí o símbolo da humildade de Jesus ao tomar para sí tal tarefa. Na Índia já tinhamos esta cerimônia, mas com o sentido de purificação antes de qualquer ritual de oferenda ou adoração, e o ato simbólico de lavar os pés representa ainda hoje a purificação de todo o corpo e alma na falta de um banho, um aconchegante lava-pés!
Mas vamos ao meu amigo do banheiro... Aqui no prédio onde trabalho não há banheiro individual por escritório, temos um andar com umas 12 salas, dentre elas consultórios, seguradoras, orgãos do governo, etc., e um banheiro masculine serve todo o andar. Assim, não raramente eu entro no banheiro por volta das 10:30 e encontro meu amigo descalço pisando sobre seu par de tênis, e com um dos pés dentro de uma das 3 pias (ufa, ainda bem que são 3...), lavando-o cuidadosamente. Quando nota minha presença, ele meio cabisbaixo me desfere um olhar meio que sem jeito, como quem tenta se esconder por entre a vasta sombrancelha, mas segue firme seu trabalho.
Na primeira vez, eu julguei de forma implacável: sujeitinho sujo... Como pode ser tão porco! Mas tomei a liberdade de analisar melhor a partir da segunda oportunidade, e notei que ele de certa forma se despia dos pertences de bolso, expondo uma outra parte de sua vida sobre a pia: um celular simples, papéis rascunhados, algumas moedas, e um cartão telefônico de chamadas internacionais... Então eu arrependido, repensei: talvez ele só tenha esta oportunidade durante todo o dia pra limpar-se... Sua face imigrante estava mais que confirmada através dos detalhes da cena, e eu já não sabia mais se ele era sujo ou coitado. Lembrei então da cerimônia do lava-pés, e pensei que talvez fosse a única forma dele se sentir banhado, após longas viagens por esta selva de pedras em busca de emprego, abrigo, ou alguma coisa qualquer que fizesse real a promessa que lhe fez desembarcar aqui.
Cheguei em casa, e durante meu banho quentinho, tentei lavar minha podre e mesquinha capacidade de julgar, e agora me sinto feliz ao ir ao banheiro e encontrá-lo por lá em seu ritual.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
domingo, 30 de novembro de 2008
sábado, 1 de novembro de 2008
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Opiniões e Referências de Cada um
Seguimos aqui nossa rotina, um pouco mais distante do mágico momento da chegada e todas as suas surpresas, e cara a cara com a realidade. Toronto é realmente um outro mundo, de uma beleza metropolitana, as vezes futurista, com algumas grandezas, banhada pelo lago Ontário que a faz mais natureza, mas com seus becos e incidentes de uma metrópole, cidade grande marcada por uma certa mesmice, once tudo acontece mas pouco se muda, lugar ideal pra tocar a vida num rítmo lento, pouco inspirador.
Mas a boa de hoje foi a conversa entre Angélica e Bibi ontem ainda a mesa, após o jantar. Não sei qual foi o assunto e a Angélica disse:
- ... Quando a gente voltar a viver no Brasil, você pode fazer (não sei o que, que eu não lembro mais...)
A Bi olhou pra ela, pra mim, e mandou:
- Eu não quero mais voltar... E quero "v-i-s-i-t-a-r"!
A Angélica olhou pra ela, já com lágrimas nos olhos:
- Credo Bianca, você me assusta assim...
Ela ficou olhando a mãe nos olhos meio que tentando entender o porquê das lágrimas.
Confesso que também não esperava por esta...
Ontem não trabalhei e pude buscar a Bi na escola de "Ler e Escrever", como ela mesmo chama. Uma escola pública muito perto de casa onde ela faz o 2. ano preparatório por 2:30 hs. para ingressar ano que vem na escola de verdade, quando ficará por 6 horas. Na hora do "Bye" senti um certo distanciamento entre ela e a Profa., acho que uma fase nova onde a ligação entre a criança e o mestre já não tem mais aquele tom de afeto da creche, aquela coisa quease que mãe-filho. Ela me pareceu estar por ela só, sem muita dependência, sem muito carinho. Mesmo assim ela gosta muito, já sabe todas as letras, números, muitos fonemas, algumas palavras... Adora a sexta por ser o dia de ir a biblioteca da escola, e todo dia traz um livro que deve ser lido em conjunto com os pais, e alguma lição de casa no final de semana. A pronúncia continua evoluindo, e já esta a anos luz da minha...
Mas a boa de hoje foi a conversa entre Angélica e Bibi ontem ainda a mesa, após o jantar. Não sei qual foi o assunto e a Angélica disse:
- ... Quando a gente voltar a viver no Brasil, você pode fazer (não sei o que, que eu não lembro mais...)
A Bi olhou pra ela, pra mim, e mandou:
- Eu não quero mais voltar... E quero "v-i-s-i-t-a-r"!
A Angélica olhou pra ela, já com lágrimas nos olhos:
- Credo Bianca, você me assusta assim...
Ela ficou olhando a mãe nos olhos meio que tentando entender o porquê das lágrimas.
Confesso que também não esperava por esta...
Ontem não trabalhei e pude buscar a Bi na escola de "Ler e Escrever", como ela mesmo chama. Uma escola pública muito perto de casa onde ela faz o 2. ano preparatório por 2:30 hs. para ingressar ano que vem na escola de verdade, quando ficará por 6 horas. Na hora do "Bye" senti um certo distanciamento entre ela e a Profa., acho que uma fase nova onde a ligação entre a criança e o mestre já não tem mais aquele tom de afeto da creche, aquela coisa quease que mãe-filho. Ela me pareceu estar por ela só, sem muita dependência, sem muito carinho. Mesmo assim ela gosta muito, já sabe todas as letras, números, muitos fonemas, algumas palavras... Adora a sexta por ser o dia de ir a biblioteca da escola, e todo dia traz um livro que deve ser lido em conjunto com os pais, e alguma lição de casa no final de semana. A pronúncia continua evoluindo, e já esta a anos luz da minha...
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Nos no Marineland
Sexta passada fomos ao Marineland, parque com bichos d'agua como baleias, golfinhos, focas, ursos... Ops... Digamos entao um parque com animais, once passamos o dia. Fica em Niagara Falls, e depois passamos por la pra curtir o centro animado, com cassino, diversas atracoes, e as quedas tambem.
Voltamos tarde, cansados e felizes. As criancas se esbaldaram.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Nossa Lingua Portuguesa
A Bibi esta toda feliz! Aqui na província de Ontário, onde fica a cidade de Toronto, e a vizinha Mississauga, onde estamos vivendo, ela já pode ir a escola "de ler e escrever" como ela mesmo diz. E semana passada ela, que estava ficando o dia todo na escolinha infantil, estilo creche, partiu pro 1. dia de escola de verdade, apenas duas horas por dia neste ano, que aqui acabou de começar - o ano letivo vai de setembro a junho. E ela voltou contanto que formou fila pra entrar, tem sinal, a profa. chama "Missis" Nelson, e o mais legal: tem hora do lanche! (em duas horas da pra tudo isso??!!) E foi o máximo tê-la no meu pé, perguntando se eu não ia fazer minha marmita pra fazermos juntos... E ela que monta o lanche dela, nem adianta eu tentar... Mais uma etapa que ela inicia, e toda feliz porque sonha em ler e escrever.
E assim ela fica de manhã na escola infantil, com a Profa. Linda, uma Portuguesa que deve evitar nosso idioma por questões óbvias, e que a Bibi adorou também.
E por falar na língua de Camões, que nem sempre damos o devido valor, quero comentar sobre o tal dos Phrasal Verbs... Pra que? Não é "send an e-mail", mas sim "send out an e-mail"... Não é "set an indicator", é "set up..."... Não é "ramp the business", mas "ramp up"... Pra que simplificar, não é mesmo? Mas tem sido divertido.
E assim ela fica de manhã na escola infantil, com a Profa. Linda, uma Portuguesa que deve evitar nosso idioma por questões óbvias, e que a Bibi adorou também.
E por falar na língua de Camões, que nem sempre damos o devido valor, quero comentar sobre o tal dos Phrasal Verbs... Pra que? Não é "send an e-mail", mas sim "send out an e-mail"... Não é "set an indicator", é "set up..."... Não é "ramp the business", mas "ramp up"... Pra que simplificar, não é mesmo? Mas tem sido divertido.
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